Luiza Silvestrini


"Rompi tratados
Traí os ritos
Quebrei a lança
Lancei no espaço
Um grito, um desabafo"

Sangue Latino - Ney Matogrosso
 
 
 
 

Carta a um amor...

São Paulo, 10 de janeiro de 2010

Meu amor,

Há tempos eu não sentia um ódio tão profundo de alguém. Enquanto escrevia essas linhas, muitas vezes tive gana de matar-te. Fique certo de que se não o faço, é somente pelo orgulho. O que me impede é a aversão que sinto a ver pessoas me olhando com pena, como se compreendessem o porquê da minha raiva. Não, meu amor. Ninguém entende, nem eu mesma poderia compreender tão vil sentimento.

Tenho vontade de gritar, de chorar, de atirar os meus cristais às paredes, mas nada disso me faria sentir mais serena. De nada me vale bater a porta se você não estiver no outro cômodo, meu amor. Precisava eu das suas pernas entre as minhas, como estiveram da última vez em que brigamos, para tirar do meu peito essa amargura. Aquele teu jeito de me atirar de um lado para outro, emaranhar-me os cabelos, me segurar na nuca e me beijar.

Mas é quando percebo a falta desses gestos que mais te odeio. Espero que a vida lhe reserve apenas desgraças.


Um delírio de Lu transcrito às 22h09 [ ] [ espalhe!!! ]



"Benzinho eu ando pirado/ Rodando de bar em bar..."

No fundo ela sabia que devia começar por admitir o quanto era fraca. Poucos e rápidos flashes da noite anterior giravam em sua cabeça num carrossel maluco e assombrado. Príncipes viravam palhaços medonhos empunhando objetos cortantes. Então ela caminhava sozinha por uma rua desconhecida, sem documentos e sem um real no bolso.

No fundo ela sabia que quem a cortava lenta e profundamente, só para ver com que intensidade o sangue podia jorrar, era ela mesma. A cada ferida uma nova experiência. Em cada parte perfurada o sangue corria de um jeito diferente.

Mas é que, no fundo, ela sabia que a dor dos cortes era infinitamente menor do que aquela que ela sentia antes. Depois da terceira tequila era até difícil sentir o corte. E ver o sangue rolar fazia com que ela esquecesse o que ardia nela de verdade. Ela poderia dizer mais tarde que era experiente e resistente à dor.

Mas no fundo ela sabia que apesar de ter tentado mudar uma vida inteira em poucas noites, ela continuava a fazer o que sempre fez. Escondia suas máculas sob um belo vestido antes de se cortar novamente para fazer a dor passar.

Mas agora, ela também sabia, estava mais só do que nunca.


Um delírio de Lu transcrito às 18h15 [ ] [ espalhe!!! ]



Dos relacionamentos humanos

Eu tinha de 9 para 10 anos quando pedi:

“Pai, me compra uma planta carnívora?”.

Confuso, ele me questionou:

“Mas pra quê você quer uma planta dessas, filha?”

“Para ver como é que ela devora os insetos mesmo sem poder sair do vaso”

...

A minha planta carnívora chegou em pouco tempo. Dei a ela o nome de Genésia e volta e meia, eu encostava uma folha no que na época eu chamei de “boca da planta” só para vê-la fechar. Era para mim um mecanismo fascinante. E ver como um ser que parecia tão frágil e indefeso podia ser tão mortal e perigoso me empolgava mais ainda.

Mente quem diz que crianças são boas. Crianças são más.

A verdade é que a Genésia morreu em pouco tempo. De tão deslumbrada com o fato dela ser tão forte, feroz e até perigosa para seres menores, eu esqueci de regá-la. Julguei que ela fosse capaz de se alimentar sozinha e sobreviver sem que eu a ajudasse.

Ela morreu por descuido meu, assim como morrem todos os relacionamentos humanos que julgamos serem tão fortes a ponto de não precisarem ser regados.

E eu, criança estúpida e inconseqüente, jamais pensei que talvez ela ficasse triste ao me ver regar a orquídea que nem me divertia tanto quanto ela, quando se fechava diante de mim.

É. Assim são todos os relacionamentos entre pessoas e plantas.


Um delírio de Lu transcrito às 02h49 [ ] [ espalhe!!! ]



Le Petit...

E mais uma vez, o livro preferido de toda miss de qualquer lugar do país faz um sentido assustador para Floriana. E é claro que pra ela, nunca vai ser a parte que todo mundo decora. Essa é outra. Mas o livrinho que ela lia quando era criança continua fazendo sentido.

"Assim o principezinho, apesar da boa vontade do seu amor, logo duvidara dela. Tomara a sério palavras sem importância, e se tornara infeliz.


Não a devia ter escutado - confessou-me um dia - não se deve nunca escutar as flores. Basta olhá-las, aspirar o perfume. A minha embalsamava o planeta, mas eu não me contentava com isso. A tal história das garras, que tanto me agastara, me devia ter enternecido.

Confessou-me ainda:

Não soube compreender coisa alguma! Devia tê-la julgado pelos atos, não pelas palavras. Ela me perfumava, me iluminava... Não devia jamais ter fugido. Devia ter-lhe adivinhado a ternura sob os seus pobres ardis. São tão contraditórias as flores! Mas eu era jovem demais para saber amar."


Um delírio de Lu transcrito às 13h08 [ ] [ espalhe!!! ]



Da pouca água que me resta

Entenda que essas linhas só serão plenamente compreendidas por aqueles que um dia já quiseram engarrafar todo o seu bem-querer.

Aqueles que, cansados de ver a água se esvair pelos dedos das mãos, desejaram colocá-la toda dentro de uma garrafa para bebê-la pouco a pouco. Caso o líquido fosse escasso, o que na maioria das vezes é verdade, porque nunca há amor que sobre, poderia descer pela garganta apenas um gole a cada ano, para diminuir a saudade daquele amor tão doce e gentil que insiste em ir embora.

E esses, que sentem falta desse amor, vão entender que no auge da sede é que se tem vontade de virar de uma vez só a garrafa. Mas quem tiver juízo há de pensar que aquilo é tudo que resta de quem se foi para nunca mais voltar.

E dói. E revolta. E entristece. Morrer de sede é triste. Viver com sede também.

Mas é que a liquidez é implacável.E se não for ela mesma a entrar pelo vão dos dedos e escapar de mim, será o tempo que a fará sumir, evaporar.

E para quem entende a dor dessas linhas, ainda resta um consolo. A água que evapora, a gente respira, e esse amor que vai embora, esse tão antigo e tão profundo, esse eu talvez não possa mais beber, mas eu vou sempre respirar.


Um delírio de Lu transcrito às 15h57 [ ] [ espalhe!!! ]




[ No fundo do baú... ]