Luiza Silvestrini



"Eu é que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar"

Ouro de Tolo - Raul Seixas
 
 
 
 

" Fazer uma canção pra você viver mais..."

Meu avô,
 
Escrevo pra dar notícias dessa terra em que vivo. E pra dizer que estou com saudade. Muita!
 
Eu moro em um lugar bem diferente do que, provavelmente, você imaginou que eu viveria quando tinha a minha idade. Têm muitos carros na rua, até demais. De tantos automóveis, nenhum consegue andar. Burrice a nossa, não?
 
Talvez por isso, aqui onde eu estou, as pessoas estejam sempre com pressa. Parar para conversar enquanto tomamos café, ou sentar à mesa com pessoas que moram nas nossas próprias casas, viraram ocasiões raras. De tão difíceis, se tornam até estranhas, às vezes. Normalmente, eu compro alguma coisa para "comer no caminho" e normalmente, faço as refeições andando por aí.
 
Ninguém mais brinca na rua. As crianças usam vídeo-games, os mais velhos, computadores. Ah! O computador. A gente usa essa máquina para tudo hoje. Quando ela pára, nós paramos junto. Eu também dificilmente vou à casa de alguém para conversar. Eu uso um programa de computador que me dá a ilusão de que estou em contato com o mundo. Acho que nunca mandei uma carta, vô.
 
Eu nunca fiz uma cerca e acredito que ninguém nunca vá me ensinar a fazer. As cercas hoje são feitas por empresas especializadas. Elas são elétricas e funcionam em conjunto com circuitos de vigilância integrada. Elas não afastam os animais, mas as pessoas.
 
Acredite você, vô. Quando eu preciso me exercitar, pego meu carro e vou a uma academia. Paradoxal, não? Mas é que o ar nas grandes cidades está quase irrespirável.
 
Para os meus amigos, e até para mim, tudo isso é um amontoado de fatos óbvios e irreversíveis. Mas contá-los a você talvez explique por que às vezes nos sentimos tão distantes. E o mais incrível de tudo isso, é que você, que brincou na rua, que nunca operou um computador, que jamais jogou vídeo-game (a não ser o que eu te dei de presente, aos 7 anos), que não ia à academia e que nem terminou o colégio, esteve presente em cada uma de todas as decisões que eu tomei até agora, nos meus 19 aos sobrevivendo nesse mundo-cão.
 
Tive construir as cercas ao redor de mim mesma. E consegui. Você foi uma das pessoas que estava lá pra me ajudar. E vai sempre estar.
 
Te amo. Eu nunca consigo dizer, mas te amo!

Um delírio de Luiza Silvestrini transcrito às 12h05 [ ] [ espalhe!!! ]



Pra sempre

Foi aí que ele perguntou a ela se estava apaixonada por ele.

- Estou.

-E como é isso?

- Sei lá. É bom.

No fundo, nada em sua mente ou em sua alma era certo. Ela pensava, agora, que ninguém sabia o que era estar apaixonado.

Para ela, a paixão não era nada mais que a sensação de nunca ter vivido nada maior, mais fantástico nem mais intenso antes.

Dizer que estava apaixonada era o mesmo que dizer que, naquele momento, ela tinha a ampla certeza de jamais ter sentido algo semelhante por alguém. Mataria, morreria, se humilharia, rastejaria.

Sem explicações morais, racionais ou científicas. Estar apaixonado era, naquele instante, planejar a vida a dois, sem pensar que aquilo poderia não acontecer.

A paixão é uma impressão. Uma impressão deliciosa, que não tem prazo de validade, e nem por isso é imperecível.

Nisso, ele interrompeu o raciocínio dela.

- A parte ruim é estar sempre em sobressalto, com medo de lidar com a perda.

Um delírio de Luiza Silvestrini transcrito às 00h46 [ ] [ espalhe!!! ]



Cotidiano Relevante


Querido diário,

Hoje o meu dia foi super chato. Acordei cedo pra ir à facul, encontrei a galera e fofoquei com as minhas melhores amigas. A Laurinda cortou o cabelo e ficou um horror, mas eu disse pra ela que o novo corte arrasou. Um pouco de falsidade não mata ninguém, não é mesmo?

As aulas todas foram um saco. Aquele professor de História Recente ridículo falando de um tal de golpe de 24. Ou era 44? Não sei bem. Por que eu tenho que aprender isso?! Passado é passado, não vai voltar.

No intervalo vi todo mundo humilhar aquele bixo-nerd um ano mais novo e rolei de rir com isso. Gente que não tem classe nasceu mesmo pra me fazer rir. Ele é um, aquela gordinha que faz Publicidade e usa um vestido xadrez é outra. Gente gorda não devia sair de casa.

Cansei de me insinuar pro lerdo do João. Agora vou partir pra outro e pegar geral. A fila anda, meu bem! O próximo será o Tavinho.

Depois tive outra aula chata de Literatura Nacional em que me obrigaram a ler um trecho sobre uma tal de Capitu. Isso lá é nome de gente?!

Nem sei por que meu pai ainda me obriga a ir pra essa faculdade. Quem precisa estudar pra ter dinheiro hoje em dia?!

Só fiquei feliz mesmo na academia. Eu sinto NECESSIDADE de cuidar do meu umbigo! Cem abdominais são o mínimo que eu me permito fazer todos os dias. Imagem é tudo na vida de uma mulher.

À noite, shopping com as amigas. Mc Donald’s, filme de terror no cinema, jogar pipocas nos outros. Causamos! Eu racho dessa galera, viu.

E agora, que eu já voltei pra casa e fiz questão de contar pra todo mundo o quanto o meu dia foi interessante, eu vou xingar os meus pais e ir dormir.

Boa noite, diário. Até amanhã.

Jacinta


Um delírio de Luiza Silvestrini transcrito às 00h12 [ ] [ espalhe!!! ]



E que tudo que é vivo, morre...

Quem inventou a roda? Ela se viu pensando nisso enquanto enfrentava o trânsito caótico de São Paulo às 18h.

Aqueles carros só podiam andar graças ao ser que inventou a roda. Não saberia dizer se sentia ódio ou gratidão pelo infeliz que gerou aquele engarrafamento. Podia mesmo não ter inventado a roda.

Naquele fim de semana, porém, ela viu seu mundo inteiro girar em uma roda viva. E se a roda é viva, é fato que um dia morrerá.

No meio daquela forma geométrica moldada em metal, havia um menino brincando. Um menino rei, dotado de infinitas qualidades. Nunca foi bom na escola, mas não deu trabalho aos seus pais.

A roda girou.

O menino estava triste. Se sentia sozinho enquanto virava homem. E virou. Em uma virada da vida, ele virou um homem honesto, íntegro e forte, acima de tudo.

A roda girou mais uma vez.

Agora ele era herói. Era pai e depois avô. Era o maior, o melhor, o mais forte.

A Roda enrugou o menino, e um dia vai enrugar a ela também. Ela sabe disso. A roda leva todo mundo de um lado pra outro da vida. Ela só espera um dia ter a coragem dele, pra girar a roda até o final do caminho.

É preciso de muita sabedoria para aprender a andar sobre rodas.

Um delírio de Luiza Silvestrini transcrito às 23h58 [ ] [ espalhe!!! ]



Felisbina e Felisberto

Eu o escuto chegar em casa às 5, 6, 7 horas da manhã daqueles domingos frios e quentes enquanto fico me perguntando se foi à toa que esperei ouvir a chave girar na porta com dificuldade até aquela hora.

É até engraçado pensar nas nossas brigas agora que em vez de matá-lo, eu sentia que poderia morrer por ele. De todas, a vez em que eu o tranquei na cozinha é a que mais me causa remorso. Foi no dia em que aprendi a trancar portas. Ele estava lá dentro quando eu aprendi, e ficou lá até eu lembrar que tinha aprendido. Encontrei-o dormindo sobre a mesa quando percebi que o havia deixado lá. Eu nunca planejei fazer isso. Foi sem querer. Meus pais jamais souberam.

De todas as brigas, as que mais me doem são aquelas em que bradei que preferia ser filha única. Isso nunca foi verdade. Às vezes eu me pergunto se ele pensa isso e espero que ele nem mesmo se lembre.

Dos meus amigos e companheiros, ele sempre foi o mais leal. E no dia em que eu mais precisei, foi dele o abraço mais gostoso que ganhei. Um dos poucos que tive coragem de pedir ao longo da vida.

E é pensar em perder isso tudo para todas aquelas coisas, que eu mesma já enfrentei e às quais sobrevivi, que me corrói a alma e me tira o sono. É por isso que eu gosto de ouvir a chave girar na porta. Pra ter no dia seguinte a chance de pedir aquele abraço que eu sempre quero, mas nunca dou.

"Que os filhos únicos são seres infelizes"
Cazuza- Filho Único


Um delírio de Luiza Silvestrini transcrito às 11h57 [ ] [ espalhe!!! ]




[ No fundo do baú... ]