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Luiza


"Tanto choro e pranto
A vida dando na cara
Não ofereço a face nem sorriso amarelo
Dentro do meu peito uma vontade bigorna
Um desejo martelo"

Martelo Bigorna - Lenine
 
 
 
 

Dos relacionamentos humanos

Eu tinha de 9 para 10 anos quando pedi:

“Pai, me compra uma planta carnívora?”.

Confuso, ele me questionou:

“Mas pra quê você quer uma planta dessas, filha?”

“Para ver como é que ela devora os insetos mesmo sem poder sair do vaso”

...

A minha planta carnívora chegou em pouco tempo. Dei a ela o nome de Genésia e volta e meia, eu encostava uma folha no que na época eu chamei de “boca da planta” só para vê-la fechar. Era para mim um mecanismo fascinante. E ver como um ser que parecia tão frágil e indefeso podia ser tão mortal e perigoso me empolgava mais ainda.

Mente quem diz que crianças são boas. Crianças são más.

A verdade é que a Genésia morreu em pouco tempo. De tão deslumbrada com o fato dela ser tão forte, feroz e até perigosa para seres menores, eu esqueci de regá-la. Julguei que ela fosse capaz de se alimentar sozinha e sobreviver sem que eu a ajudasse.

Ela morreu por descuido meu, assim como morrem todos os relacionamentos humanos que julgamos serem tão fortes a ponto de não precisarem ser regados.

E eu, criança estúpida e inconseqüente, jamais pensei que talvez ela ficasse triste ao me ver regar a orquídea que nem me divertia tanto quanto ela, quando se fechava diante de mim.

É. Assim são todos os relacionamentos entre pessoas e plantas.


Um delírio de Lu transcrito às 02h49 [ ] [ espalhe!!! ]



Le Petit...

E mais uma vez, o livro preferido de toda miss de qualquer lugar do país faz um sentido assustador para Floriana. E é claro que pra ela, nunca vai ser a parte que todo mundo decora. Essa é outra. Mas o livrinho que ela lia quando era criança continua fazendo sentido.

"Assim o principezinho, apesar da boa vontade do seu amor, logo duvidara dela. Tomara a sério palavras sem importância, e se tornara infeliz.


Não a devia ter escutado - confessou-me um dia - não se deve nunca escutar as flores. Basta olhá-las, aspirar o perfume. A minha embalsamava o planeta, mas eu não me contentava com isso. A tal história das garras, que tanto me agastara, me devia ter enternecido.

Confessou-me ainda:

Não soube compreender coisa alguma! Devia tê-la julgado pelos atos, não pelas palavras. Ela me perfumava, me iluminava... Não devia jamais ter fugido. Devia ter-lhe adivinhado a ternura sob os seus pobres ardis. São tão contraditórias as flores! Mas eu era jovem demais para saber amar."


Um delírio de Lu transcrito às 13h08 [ ] [ espalhe!!! ]



Da pouca água que me resta

Entenda que essas linhas só serão plenamente compreendidas por aqueles que um dia já quiseram engarrafar todo o seu bem-querer.

Aqueles que, cansados de ver a água se esvair pelos dedos das mãos, desejaram colocá-la toda dentro de uma garrafa para bebê-la pouco a pouco. Caso o líquido fosse escasso, o que na maioria das vezes é verdade, porque nunca há amor que sobre, poderia descer pela garganta apenas um gole a cada ano, para diminuir a saudade daquele amor tão doce e gentil que insiste em ir embora.

E esses, que sentem falta desse amor, vão entender que no auge da sede é que se tem vontade de virar de uma vez só a garrafa. Mas quem tiver juízo há de pensar que aquilo é tudo que resta de quem se foi para nunca mais voltar.

E dói. E revolta. E entristece. Morrer de sede é triste. Viver com sede também.

Mas é que a liquidez é implacável.E se não for ela mesma a entrar pelo vão dos dedos e escapar de mim, será o tempo que a fará sumir, evaporar.

E para quem entende a dor dessas linhas, ainda resta um consolo. A água que evapora, a gente respira, e esse amor que vai embora, esse tão antigo e tão profundo, esse eu talvez não possa mais beber, mas eu vou sempre respirar.


Um delírio de Lu transcrito às 15h57 [ ] [ espalhe!!! ]



Mágoas Afogadas

Ela tinha 17 anos quando fumou o primeiro baseado. E 21 quando bateu uma carteira pela primeira vez. Foi fácil. Homens ficavam realmente muito burros ao vê-la se aproximar. 150 reais. Não era muita coisa, mas ia pagar a gasolina de alguns dias andando por aí.

Pegou a estrada de novo. Não era muito difícil escolher um caminho, ela nunca soube muito bem para onde estava indo. Seu senso de direção era imprestável até mesmo quando ela sabia onde queria chegar. Um alívio que agora a direita ou a esquerda fossem indiferentes. Uni-duni-tê. Hoje ela ia pela esquerda. Preferiu não prestar atenção a placa alguma que a obrigasse a saber onde estava.

No banco de trás do seu velho carro amassado, toda a sua vida. Roupas, fotos, objetos pessoais. Nenhum telefone ou endereço. Aliás, ela se lembrava com gosto de quando atirou seu celular pela janela do caro e o viu sendo destruído pela roda de um caminhão. Pensou nos seissentos reais jogados fora, mas sorriu outra vez ao pensar na tranquila solidão que teria a partir de então.

Sentiu o vento no rosto, guspiu pela janela só para ser mal educada. Passou por uma ponte, olhou para o horizonte. Vislumbrou a linha em que o céu tocava as águas. Levou rapidamente a garrafa de vodka até a boca. Fez uma curva violenta para um dos lados, sem pensar com qual mão escrevia. Pisou no acelerador até que o carro destruísse o muro. Sentiu um frio na barriga e o impacto do carro na água.


Um delírio de Lu transcrito às 19h13 [ ] [ espalhe!!! ]



A Cerveja e o Vinho

Enquanto entornava a lata suada e a cerveja estupidamente gelada descia pela garganta seca, pensava que alguns amores eram como aquela bebida. Um rompante, um momento. Algo que se bebe rápido e em um só gole. Dois ou três talvez. Mais do que isso é tempo suficiente pra cerveja esquentar. E cerveja choca ninguém bebe. Amor choco ninguém quer. As grandes paixões são bebidas assim, num só gole. Esvazia-se a lata de uma vez, porque se esquenta, ninguém bebe o resto. Fica ali, aquele fundo de lata que nem é mais tão atraente. Mas há um outro tipo de amor. Aquele que ele não se permite beber com medo da dor de cabeça no dia seguinte. O amor que é como vinho. Envelhecido em barril de carvalho. Aquele que fica na estante, numa linda e impecável garrafa que nunca é aberta. Não falta a ânsia de abri-lo e bebê-lo todo de uma vez, mas a coragem. Uma vez arrancada a rolha, a bebida pode azedar. E ao tirar aquela relíquia da prateleira, corre-se o risco de perder o encanto da sala inteira. Enquanto ele vira a lata de cerveja barata na sala com os amigos, olha pesaroso para o vinho na estante. Mas é menos trágico perder o fundinho de dezenas de latas a deixar que aquele precioso vinho azede. Todos os dias, bebem-se muitos amores corriqueiros, com medo de se entorpecer do mais profundo de todos os sentimentos.


Um delírio de Luiza Silvestrini transcrito às 02h38 [ ] [ espalhe!!! ]




[ No fundo do baú... ]